
Meu cuidado é tão “seu”, tão simétrico em relação a você, acolhe-te desde sua testa, onde meus lábios descansam, até seus pequenos pés, aonde sua vontade de dançar reside. Ah, minha pequena, podemos dançar o quanto quiser, gosto de senti-la perto de mim, de colocar seus pés em cima dos meus e apenas andarmos juntos, assim, sem nenhuma distância. Não precisamos de música, pequena, já temos a nossa. Pode não ser a mais tocada nessas rádios tão século-vinte-e-um mas é a mais aconchegante, apenas por ser apenas nossa e não mais “minha-ou-sua”. (desesperançoso)

“Havia feito promessas à mim mesmo desde que se foi, 156 para ser mais exato, uma para cada dia em que sua presença apenas residia em minhas lembranças. Acho que peguei essa mania de você… Sempre me fazendo promessas, nem sempre eram cumpridas, mas de alguma maneira insistia em faze-las como se isso não me machucasse ainda mais. Como se isso fizesse alguma melhoria em nossa situação… Vamos por a face ao exposto, querida. Me encontro nesse bar enquanto você deve está jogando promessas ao vento, como se ele fosse levá-la a algum lugar mas interessante, mas realmente espero que as cumpra dessa vez, espero que não se encontre no mesmo estado que essa minha camisa velha, amarrotada e cheia de manchas do passado quase impossíveis de serem tiradas. […] Prometi a mim mesmo não tocar em qualquer assunto relacionado à você, mas parece que já quebrei essa promessa, assim como estou descumprindo outras promessas feitas por alguém cujas esperanças esvaíram de sua mão assim como as cinzas de seu último cigarro, o qual foi prometido não ser fumado. Bem, querida, você realmente se foi e tolo fui eu que esperei por ti, apenas convencendo a mim mesmo de que como não prometeu voltar, talvez assim cumprisse o que não prometeu. Acho que essa parte desconcertante roubei de ti, para falar a verdade há mais de você em mim, do que eu mesmo. Já não me reconheço mais ao olhar meu reflexo, querida. Preciso de ti, mesmo com todas essas tuas falsas-promessas, apenas estou cansado, ando esperando demais, mas quem sabe você não esteja se arrumando? Lembro-me bem como demorava para sairmos… Só não demore muito, querida. Cumpra essa promessa por mim, mesmo que não tenha a feito.” (desesperançoso)

“Então, Alice, me diz se seria diferente se ela tivesse ficado? Se ela não tivesse ido embora levando tudo que me restou, desde meu interesse por leitura até meu próprio orgulho. Aliás, Alice, se ela me levasse junto com ela. Talvez aqui dentro fosse menos frio, talvez aqui fosse melhor de se morar. Você acredita nisso também, Alice? Sei não… Aqui já era assim antes dela, Alice. Ela apenas aqueceu um pouco essa minha sala de incertezas. Não durou tempo o suficiente para torná-la agradável. É, Alice, ela foi só uma brisa quente nos meus dias gélidos. Mas talvez eles fossem mais suportáveis se ela tivesse ficado.” (desesperançoso)


“Deixar alguma coisa importante para trás é tão desgastante. Desgasta sua vontade de seguir em frente, desgasta tua memória, desgasta seu interesse nas outras coisas. Você deveria sentir-se mais leve, mas o peso da saudade te afoga em nostalgias. E no final, o que sobra? Sobra a vontade de retroceder alguns passos e pegar o que você deixou no meio da estrada, aquele arrependimento frio. […] A cada passo você desgasta-se mais um pouco e o que antes era inteiro, agora só sobrou alguns fragmentos e eles simplesmente não lembram como eram antes de se despedaçarem.” (desesperançoso)